
Outro dia uma pessoa me contava estar num período sabático após um longo tempo de frustração por não atingir a posição que desejava. E sua maior frustração estava mais em não entender o porquê de não chegar do que o não chegar propriamente dito.
Essa é uma profissional capaz, inteligente, planejada, organizada, voltada a resultados e hábil para mobilizar equipes… é daquelas pessoas que assumem o compromisso e nada as tira do objetivo e da entrega final. Tê-la na equipe é ter a certeza de que as coisas serão feitas, e muito bem feitas! O contraponto é que essa seriedade e precisão (ou rigidez, como ela mesma diz) impactam no quanto questiona pessoas, sistemas e situações. Sem querer ela é capaz de intimidar e deixar ambientes mais tensos, e possivelmente isso seja um ponto de atenção…
À medida que explorávamos seu momento perguntei como se via em situações sem estresse e que somente ela fosse impactada. A resposta veio com o que mais gosta de fazer, que é viajar. Se no resto da vida ela é planejada, organizada e rígida, para viajar ela é fluida, planejando alguns aspectos mais macros, mas deixando muito espaço para improvisação e espontaneidade.
Assim que a escutei dizendo isso, perguntei qual era a chance de ela ter desenvolvido tão bem algumas habilidades, que hoje confundisse o “ser” com o “saber fazer”… e por isso talvez fosse tão difícil encontrar algumas respostas…
Sabem, esse relato é algo muito mais comum do que se imagina. Muitas vezes acreditamos que somos o que sabemos fazer, e isso traz grande confusão na forma com que nos comportamos. Eu, por exemplo, sempre me vi como uma pessoa organizada, planejada, metódica e processual… mas estava sempre estressada, frustrada, preocupada e sem brilho.
Quando me dei a chance de descobrir quem verdadeiramente era, descobri que a organização, pra mim, é um meio de se chegar à eficiência, e não um fim em si mesma. Descobri, também, que prefiro sempre ter uma visão mais macro e externa das coisas, para ter margem de criação e manobra – ainda que saiba estruturar detalhes precisos. Descobri, inclusive, que detalhes me cansam e fazem com que me perca, e que sou muito mais auditiva e interativa do que visual e solitária.
O interessante é que por muito tempo eu não sabia de nada disso pois passei grande parte da vida desenvolvendo habilidades pelas quais fui cobrada e nas quais fiquei tão boa que passaram a definir quem eu era… e não apenas me diziam o que sabia fazer… Entender que ser e saber fazer são coisas diferentes é essencial para que encontremos formas mais sustentáveis e inteligentes de nos relacionar e conduzir a vida. Pelo menos foi assim comigo e com pessoas que encontrei pelo caminho…
- Foi assim com um gestor que se descobriu competitivo no trabalho e tinha problemas com seus pares. Ao se dar conta que em ambientes confortáveis sua forma de lidar era diferente, pôde recorrer a sua essência para melhorar as relações profissionais.
- Foi assim com uma diretora que se dava muito bem com seus líderes e equipe porque estava em contato com sua essência, enquanto no relacionamento com pares tinha dificuldade de “ser” o que eles lhe diziam que tinha de ser, quando na verdade o que estava em jogo era o “saber fazer”.
- Foi também assim com uma associada que se sentia insegura nos relacionamentos no trabalho, mas descobriu em seus relacionamentos pessoais toda força e segurança que precisava para ser o seu melhor no profissional.
Chamo essa descoberta de quem somos versus usar bem o que fazemos de “sweet spot”. Sweet spot é nosso melhor lugar, em que sabemos quem somos, o que sabemos e “dançamos” de forma sustentável para lidar com as situações e pessoas.
E com base em toda essa exposição deixo essa reflexão e, porque não dizer, provocação:
- Pra você, qual a diferença entre “ser” e “saber fazer”?
- Qual o impacto disso em sua vida hoje?
- Se você começar a se conectar melhor com suas preferências verdadeiras e usá-las inclusive para escolher as habilidades que quer desenvolver, o que poderá ser melhor?
Espero que essas reflexões o levem a novas transformações.
É isso aí.